sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Desperta-dor.


Hoje, pela manhã, tive uma briga feia com meu despertador. Cruel, frio e calculista, contando minuto a minuto, ele preparava o golpe: me acordou aos gritos, dizendo coisas sem sentido. Assustada, lhe pedi pra calar a boca e me deixar em paz. Não adiantou, após alguns minutos silenciados, começou tudo outra vez. Eram coisas absurdas pra se dizer àquela hora da manhã, mas seus argurmentos, confesso, eram fortes. Ficamos nos olhando durante breves segundos. Não dissemos mais nada. "Desperta-dor", pensei. Desperta-dor, desperta-dor, desperta a dor... A dor do despertar, às vezes, é lancinante. "Tic-tac, tic-tac", ele dizia. Esse é o som da sua vida indo embora, ele quis dizer.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Aprendi a dançar a minha dança.

Tem dias em que a gente só precisa de gente do nosso lado. De alguém que diga qualquer besteira, qualquer coisa boa, qualquer coisa que mova um riso, qualquer coisa que seja qualquer coisa, que seja bonito, que deixe um sopro leve no peito. Tem dias em que a gente só precisa de quem saiba limitar nossa loucura, de alguém que nos guie e nos dê um pouco de luz nos tempos maus. Também tem dias em que a gente não precisa de nada nem ninguém, mas a gente nunca quer. A gente nunca quer enfrentar a barra e o silêncio sozinho. Há aqueles dias em que a gente só precisa de um cafuné (ou de qualquer sentimento de verdade). A vida, em seus métodos, diz: calma.
De uns meses pra cá, aprendi coisas que considero muito importantes. Das que mais me marcaram, gosto de saber que aprendi a fechar os olhos e sentir. Fazer o que o corpo pede, colocar pra fora aquilo que vem de dentro. Abrir os ouvidos e a alma para a música que entra em mim e vem de mim. Aprendi a dançar a minha dança: danço a minha bagunça e - quando dá - a minha paz. Danço, principalmente, o que eu sinto. Nenhum molde além dos meus próprios. Apenas fecho os olhos e aguço os outros sentidos. Sinto - mais ainda! Sou e quero continuar sendo avesso. Descobri que sou maior do que muitos pensam, do que eu mesma pensava. Descobri que posso ser ainda maior! Aprendi que não posso desconfiar de mim: eu sou o meu pé no chão e minha cabeça nas nuvens. Porque é preciso que a gente primeiro acredite naquilo que quer transmitir: e eu acredito, sempre e cada vez mais, no amor, em suas diversas maneiras de nos tocar.

domingo, 30 de junho de 2013

Todos os poemas são de amor.



Se o poeta falar num gato, numa flor,
Num vento que anda por descampados e desvios
E nunca chegou à cidade
Se falar numa esquina mal e mal iluminada…
Numa antiga sacada, num jogo de dominó
Se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade
Se falar na mão decepada no meio de uma escada de caracol…
Se não falar em nada
E disser simplesmente tralalá…
Que importa?
Todos os poemas são de amor!

Mário Quintana.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sobre starts e game overs.

Já era tarde da noite, a gente vinha no carro e de repente ele soltou: é game over, baby. Fiquei surpresa. Nem parecia que se tratava da mesma coisa que conheço. Se assemelhava mais a um bloco de concreto de uma tonelada ou coisa que o valha a lhe cair sobre as costas. A promessa do vir a ser doía e já era futuro do presente nas suas veias. Um medo das tradições, das concessões, medo do nome, medo da coisa: ca-sar. 
Vou te dizer um negócio: confio muito que medo e desejo andam juntos, comparsas, parceiros, cúmplices. Mas o medo dele era um medo diferente, um medo pessimista, um medo game over, um medo fudeu-lascou. Era visível que padecia e não era falta de amor, aparentemente. Ele só estava cumprindo o roteiro do que já parecia desenhado. Se entregou a um desejo alheio e foi: o medo é o de ele se apagar.
E eu que, na minha experiência, casei como um pulo, de improviso, páraquedas, junto com o fluxo, casei como mar, como onda, como um sopro, disse-lhe que não senti peso imediato a cair-me sobre as costas, posso dizer que foram despencando pesos e levezas ao longo do caminho. Véus, grinaldas, grandes parques floridos ou igrejas, padres, damas-de-honra, flores vivas ou mortas cruzaram meu caminho. E achei tudo válido. Só é preciso ter clareza quanto ao seguinte: não é com o casamento que se casa, com o desejo é que se deve casar.

Corta para a frase de Drummond estampando minha mente nesse momento: "Amar se aprende amando". O resto é coragem.

Tainá Pinheiro, adaptado.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Entre o porto seguro e o além-mar.



Todo coração de mulher balança entre a certeza e a insegurança. Claro que eu sou séria, claro que você pode confiar em mim, claro. Claro que eu sei o que estou dizendo, pensando e planejando. Claro que é pra valer e que eu não tenho dúvidas. Claro que só digo a verdade. 

(...) 

Meu marido, como gosto de imaginá-lo, tem os ombros largos de proteção e abraço eterno. Tem uma mão grande que serve para tudo: desde atravessar a rua segura até sentir prazer sem medo das horas. Quando ele sorri, doce, imagino meus filhos. Exatamente com aquela ironia pura estampada na cara: um misto de esperteza com falsa esperteza. Quando ele acorda e eu acordo, e nos olhamos, é sempre uma promessa de que a vida não vai acabar porque sempre acordaremos juntos. E para sempre vamos nos amar mesmo com o desgaste das olheiras e remelas. Respiro aliviada e, mesmo distante de Deus, eu sinto que Ele abençoa tudo aquilo. Nunca viveremos o desgaste e para sempre viveremos com a falsa impressão da perfeição.

(...) 

E assim sigo sentindo, exatamente como me senti em cima de uma jangada, no mar de Pernambuco. Eu e um pedaço velho de madeira seguíamos fracos e inseguros para o além-mar e meu coração disparava de tesão, medo, excitação e pânico. Profundo e assustador nas profundidades e superficialmente claro e encantador: o mar e os olhos dele não eram para mim, eram avalanche e não eram seguros. Acalmada a euforia, lembrei que eu não sabia nadar e implorei para voltarmos. 

Feliz e firme do meu porto seguro, não deixo de admirar aquela vida azul. Me perder por ali alguns segundos, cambalear o corpo em ondas de pensamento. Sabendo que depois do horizonte ainda tem mais belezas e já sentindo a dor de nunca descobri-las. Matando a saudade com o barulho de uma conchinha, bem escondida pra ninguém descobrir que ainda sonho em ser sereia. Se possível, às vezes, viajar, dormir quieta ao seu som, gelar a espinha ao seu toque e desequilibrar a alma. Não sou inteira sem meu pouco sonho, azul e água. Amar o mar é tão humano que não pode ser traição. 

Texto original atribuído a Tati B.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O relógio do mundo.


 "Quando duas pessoas fazem amor,
Não estão apenas fazendo amor
     Estão dando corda ao relógio do mundo". 
(Mário Quintana)

Dizem que todo poeta sente as coisas um pouquinho a mais do que todo mundo. É como se eles tivessem essa habilidade sensorial de perceber o lado mais colorido de tudo - das cores, dos toques, dos cheiros -  e sair traduzindo por aí em palavras que a gente nem sempre entende.
Com Mário Quintana não foi diferente. E ele foi muito esperto quando disse essa frase aí em cima. Ele sabia que o amor move o mundo e que, quando dois sortudos o dividem, entregam pra vida um propósito bem maior do que simplesmente "existir". Ele sabia (mesmo colocando a própria profissão em risco), que quando uma pessoa ama, também descobre como fazer poesia. Mesmo que seja uma em branco, sem palavra nenhuma, já que o amor é cheio dessas coisas não-ditas.
O que o Mário não sabia é que amor não tem nada a ver com relógios. Porque amor movimenta as coisas, dá força pra elas, mas não tem nada a ver com o tempo. Isso quem faz é a saudade. O único jeito de achar amor num relógio é olhando os ponteiros:  por mais que o tempo faça os dois darem voltas, eles sempre vão se esbarrar um no outro. Sempre.
E só acredita no sempre quem acredita no resto. No amor, nas cores, nos toques, no movimento e nos ponteiros dos relógios. Eu, por algum motivo, resolvi ser uma dessas pessoas. Não virei poeta, mas resolvi abusar dos 5 sentidos que me deram. E isso nem sempre deu certo, porque o amor não gosta de gente que insiste. Ele gosta de gente que espera.

Aí eu esperei.
E esperei.
Até que o meu ponteiro esbarrou no seu.

Eu podia explicar o que aconteceu a partir daí falando de um dia de sol, da risada de um bebê, de uma paisagem colorida ou de um relógio ganhando corda. Mas eu prefiro explicar falando da gente. Do jeito confortável que a gente passou a experimentar a vida desde que um segurou o mão do outro pra seguir viagem. Do sorriso seguro que o futuro mostra pra gente, porque quando ele aparece pra nós ele só fala de certezas. Da sensação de ter super-poderes só por constatar que, com 7 bilhões de pessoas no mundo, eu é que consigo te fazer feliz. Da paz que, mesmo sendo paz, surge fazendo barulho, provocando risada e dançando com a gente todo dia pela casa. Da cosquinha que eu sinto no meu coração por te escrever tudo isso, como se fosse meu dever, minha obrigação, fazer você também perceber que a gente é capaz de fazer tanta coisa bonita. 
Porque a gente sabe fazer família. A gente sabe fazer sol em dia nublado. A gente sabe pegar um problema, dobrar e transformar em origami, pegar uma briga e transformar em curativo, pegar a mais tranquila das rotinas e transformar em movimento. Não importa pra onde, porque a gente vai junto. Não importa o sentido porque os meios nunca justificaram o fim. Aliás, pra quem acredita em pra sempre, não faz sentido nenhum acreditar no fim. E eu acredito na frase do relógio, no amor e na corda. Acho mesmo que amor de verdade só existe pra quem acredita nele. E quando ele resolve existir, se prepara que ele vem com tudo!

Eu acredito em nós dois mais do que tudo no mundo.
E ninguém no mundo vai fazer esse relógio parar!

Milena Gouvêa.

O amor é um mar de rosas, mas...


Vai tocar Chico e vocês jantarão à luz de velas. Quando se der conta, estarão trocando SMS romântico numa segunda-feira à tarde, durante o expediente. Ele escreverá "ancioso" e você ignorará o erro de grafia, afinal, o abraço dele é melhor que a gramática. Antes que possam prever, apresentarão amigos e talvez formem uma turma única. Talvez não. Você ouvirá Fagner, Marron 5, Florence, Damien Rice, Zeca Baleiro e É O Tchan pensando nele. Ele acessará o RedTube pensando em… outra, mas homem é assim mesmo (é?). Ele terá ciúme da sua minissaia, do seu melhor amigo, do Twitter e do seu ex. Você terá ciúme até da sombra dele, mas tentará disfarçar cantando kuduro mentalmente. Vocês brigarão algumas vezes por bobagens que não valem um parágrafo. A reconciliação será tórrida e valerá cada cara emburrada. Acostume-se. Nunca será um mar de rosas. Mar é feito d’água salgada, minha filha! (E desde quando uma flor é mais bonita que a vista da praia?).

Flávia Queiroz.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Deve ser essa casa.

O piso de cerâmica, as paredes de cor-nenhuma, os azulejos do banheiro. Deve ser essa casa, as portas e janelas pesadas. O jardim sem flor. A nesga de céu que se avista. Deve ser essa casa e os seus metros quadrados cansados. Parêntese no tempo e no espaço. Teia de aranha, poeira e cupim. Antigo mal disfarçado. O ar denso, tenso. A dificuldade de respirar. A rotina esmagadora dos dias. Mal posso esperar pela nova rotina e pela casa nova. Lá parece que tem ar mais "respirável". Aquele ar inconfundível de liberdade. E eu preciso mesmo é de ar. Mais do que tudo, mais do que nunca, ar. Novos ares.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Da liberdade de ser (ou não ser) feliz.



A questão é essa falta de autorização para ser inteiro. É essa estranha posição que ocupamos de quem pre-ci-sa ser feliz a qualquer custo, nem que seja de mentira. Nem que seja só para se encaixar. E sem se dar conta de que esse "ser feliz", assim tão contundente, tão perfeito, tão pra ontem, não existe, não se cabe, não se nutre. 
Meu exercício, hoje, é para ser. Ser o frio, o calor, o nublado, o desfolhado, o sol, o vento e a chuva. Claro, escuro e crepúsculo. Dor e alegria. Quero me autorizar à inteireza. Ora resplandecente, ora murcha. Ora gargalhada, ora lágrima. Ora silêncio, ora voz. Ora um "plim" - que ótima ideia! Ora "aaaah" - que "m" que eu fiz! Ser tudo, mas longe de perfeita. E somente por agora.
E assim, atenta ao que mais posso ser, sem julgar nem desmerecer, quero aprender que o perfeito é um modelo. Não existe. Não é ninguém. Sem rosto e sem alma. Sem coração e sem nome. Sem sobrenome. Sem a mágica e imperdível chance de viver. E de morrer. Para que a história da humanidade possa continuar a ser escrita. Cada dia mais belamente.

Rosana Braga.